
O melhor histórico de vinte anos da bolsa brasileira não veio da tecnologia, das commodities ou dos grandes bancos. Veio de um dos cantos mais entediantes do mercado: energia elétrica, saneamento e gás, o conjunto de empresas reunido no índice UTIL da B3. Entre janeiro de 2006 e maio de 2026, R$ 1 aplicado no UTIL virou R$ 18,09. No Ibovespa, o mesmo real virou R$ 5,19.

O número impressiona, mas um número sozinho é curiosidade, não argumento. A pergunta que interessa é o que esse setor tinha que o resto do mercado não tinha. A resposta ajuda a entender tanto o retorno quanto o risco de quem investe nele hoje.
A receita de uma distribuidora de energia ou de uma companhia de saneamento não é definida pelo mercado. É definida por contrato, e esse contrato é reajustado por índices de preços. Some a isso uma demanda que quase não cai nas recessões, porque ninguém deixa de usar luz ou água quando a economia desacelera, e o resultado é um fluxo de caixa que se comporta como um título indexado à inflação.
É daí que vem a semelhança do UTIL com o IMA-B, o índice das NTN-Bs. Ao longo dos vinte anos, os dois se moveram na mesma direção. A diferença está no que acontece por cima dessa base: uma NTN-B paga o cupom e nada mais, enquanto as empresas de utilidade pública também crescem. Foi por isso que o UTIL, com o mesmo mecanismo de proteção contra a inflação, entregou um retorno maior, cerca de 3 pontos percentuais ao ano acima do IMA-B. É, em essência, uma NTN-B com crescimento.
Uma vez entendido o motor, os resultados deixam de ser uma lista de números e passam a fazer sentido.
Se o fluxo de caixa é indexado à inflação, o retorno real deveria ser consistente, independentemente do humor da bolsa. E foi: o UTIL rendeu IPCA mais 9,2% ao ano, com ganho real positivo na grande maioria das janelas de três anos, algo que o Ibovespa não chegou perto de fazer.
Se a demanda é inelástica, o setor deveria sofrer menos quando o mercado entra em pânico. E sofreu menos: nas quatro grandes crises de mercado do período (2008, a recessão de 2014 a 2016, a Covid e o ciclo de alta da Selic em 2021 e 2022), o UTIL caiu menos que o Ibovespa em todas. Em 2008, a diferença passou de 22 pontos percentuais.
E se a vantagem viesse do motor, e não de um período de sorte, ela deveria se repetir ao longo do tempo. Foi o que ocorreu: em qualquer janela de dez anos dentro desses vinte, o UTIL superou o Ibovespa, sem uma única exceção. Mesmo em janelas mais curtas, como de 3 anos, o índice teria superado o IBOV em 92% do tempo.

Como a tarifa é definida pela regulação, o setor também fica exposto a mudanças de regra. Foi o que aconteceu em setembro de 2012 com a MP 579, apelidada de “11 de setembro do setor elétrico”. Da noite para o dia, o governo anunciou um corte de cerca de 20% nas tarifas em troca da renovação antecipada de concessões, e as ações da Eletrobras caíram perto de 50% até o fim daquele ano. A bolsa como um todo ia bem naquele momento; o que derrubou o setor foi uma decisão política dirigida à receita regulada. Revisões tarifárias e renovações de concessões voltam à pauta de tempos em tempos, e fazem parte do jogo de quem investe em utilities.
O UTIL também continua sendo um ativo de renda variável. A pior queda no período chegou a 42%, e o risco é maior que o de um título público. Cair menos que o Ibovespa está longe de oferecer a tranquilidade da renda fixa.
O que os vinte anos mostram é um setor vencedor. O UTIL combinou três coisas que raramente andam juntas: retorno maior, mais consistência e risco menor do que o de índices mais amplos como Ibovespa e o IDIV. Não exigiu uma tese ousada nem acertar o momento exato de comprar; bastou carregar, ano após ano, empresas de receita previsível e reajustada pela inflação.
No fim, é uma lição bem brasileira: fazer o arroz com feijão bem feito, sem grandes apostas, costuma render mais no longo prazo do que perseguir o que está na moda. O setor sem glamour foi justamente o que superou as opções mais conhecidas da bolsa ao longo de duas décadas.
Quem quiser essa exposição em um único ativo encontra o UTLL11, ETF da Investo que replica o índice UTIL da B3. A decisão, como sempre, depende dos objetivos, do horizonte e da tolerância a risco de cada um.
