O mercado americano de ETFs levou mais de três décadas para percorrer quatro fases distintas de desenvolvimento. Cada uma foi longa, sequencial e impulsionada por um fator específico. O Brasil está vivendo todas ao mesmo tempo.

Entender esse mapa é entender por que o crescimento atual não é coincidência.

Fonte: Galápagos Capital

Fase 1: a vantagem tributária

Nos EUA dos anos 90, os ETFs conquistaram espaço pela eficiência fiscal. Para o investidor americano, cuja principal classe de ativos era ações, o ETF era mais eficiente do ponto de vista tributário do que os fundos mútuos. Esse diferencial sustentou o crescimento da indústria americana por cerca de 15 anos.

No Brasil, a vantagem tributária chegou pela renda fixa, que é a principal alocação do investidor brasileiro. Sem come-cotas, sem IOF, com IR retido na fonte apenas no resgate (sem DARF) e alíquota de 15% desde o primeiro dia nos casos em que o prazo médio de repactuação do ETF fica acima de 720 dias.

O impacto foi imediato e mensurável. Nos últimos 12 meses, o patrimônio em ETFs de renda fixa saiu de R$11,4 bilhões para R$54 bilhões, praticamente quintuplicando. No mesmo período, o mercado total de ETFs “apenas” dobrou, de R$61 bilhões para R$121 bilhões. A renda fixa cresceu 10,6 vezes mais rápido que o restante do mercado e respondeu por 71% de todo o crescimento da indústria. Em maio de 2026, representa 45% de todo o patrimônio em ETFs no Brasil. Há 12 meses era 19%.

Fonte: Mercado de ETFs - Evolução por Classe de Ativos. Mai/2025 a Mai/2026. Fonte: B3/Quantum.

O investidor brasileiro encontrou no ETF de renda fixa o instrumento que sempre precisou para tornar sua alocação estrutural mais eficiente. A adoção não está sendo lenta.

Fase 2: o modelo fee-based

A segunda fase americana veio com a crise de 2008. A migração do modelo de distribuição para assessoria com taxas fixas foi o gatilho. Sem rebate embutido, o ETF tornou-se o veículo natural do alocador: barato, transparente e sem conflito de interesse. O resultado foi que ETFs deixaram de ser uma alternativa e passaram a ser o padrão. Hoje, nos Estados Unidos, praticamente toda carteira, de pessoa física a fundo soberano, utiliza ETFs.

No Brasil, esse movimento chegou mais rápido do que qualquer estimativa indicava. Projetava-se 10% de penetração do modelo fee-based em três anos. O fechamento de 2025 já mostrava cerca de 20%. Cada alocador que migra para taxas fixas traz consigo uma carteira inteira que precisa de veículos eficientes e sem rebate. O ETF é exatamente isso.

O Brasil está vivendo a Fase 1 e a Fase 2 de forma simultânea. O que nos EUA foram duas décadas sequenciais, aqui está acontecendo ao mesmo tempo. E já enquanto as duas primeiras fases ganham escala, a terceira começa a aparecer.

Fase 3: o ETF como wrapper

A terceira fase americana foi a expansão da estrutura ETF para estratégias progressivamente mais complexas: commodities, covered calls, derivativos de renda, alavancados. Os ETFs de renda recorrente via derivativos acumulam hoje mais de US$140 bilhões em patrimônio nos EUA. O ETF de Bitcoin, aprovado em 2024, foi o sinal mais claro de que a estrutura ETF havia se tornado o veículo preferido do mercado para qualquer ativo com liquidez suficiente.

No Brasil, essa fase está começando. Os primeiros ETFs de covered calls e renda recorrente chegaram à B3 recentemente. A regulação ainda está em calibração e o histórico é curto. Mas a lógica é a mesma que nos EUA: a estrutura ETF oferece eficiência operacional e tributária que outros veículos não conseguem replicar. Conforme o mercado amadurece, mais estratégias vão migrar para essa estrutura.

Fase 4: ETFs ativos

A quarta fase é a mais recente nos EUA e a mais transformadora. A regulação de 2019, conhecida como ETF Rule, viabilizou a gestão ativa dentro do wrapper ETF. O resultado foi expressivo: 77% dos ETFs lançados nos EUA desde então são ativos. Hoje representam 42% de todos os fluxos da indústria americana e US$2,1 trilhões em patrimônio, com CAGR de 47% ao ano.

No Brasil, ETFs ativos ainda não são permitidos pela CVM. A discussão regulatória avança. Quando essa fase chegar, a combinação de gestão ativa com a eficiência do wrapper vai redefinir o custo-benefício da gestão ativa local, para investidores institucionais e pessoas físicas.

O que vem depois?

O mercado americano levou mais de três décadas para percorrer essas quatro fases. O Brasil está percorrendo as duas primeiras simultaneamente, com a terceira chegando e a quarta no horizonte regulatório.

Quando as quatro fases estiverem completas, a pergunta que o investidor brasileiro vai fazer não será mais “devo usar ETFs?”. Será a mesma que o americano faz hoje ao pensar em qualquer alocação: “tem ETF disso?”

Sócio responsável por ETFs na Galapagos Capital. Tem mais de 30 anos de experiência no mercado de investimentos, no Brasil e no exterior, na BlackRock iShares, Itaú, Unibanco, Global X ETFs, AllianceBernstein e Safra. Atuou ativamente no desenvolvimento do mercado de ETFs no país. É administrador formado pela FGV e possui MBA pela Wharton School da Universidade da Pensilvânia. É licenciado pela CVM como administrador de carteiras e atua há anos junto à B3, ANBIMA e reguladores na construção do ecossistema de ETFs no Brasil. Casado com Lara e pai de Thomas e Helena.