Na última quarta-feira, ocorreu o ETF 360º — Estratégia, Renda e Acesso Global, promovido pela APIMEC Brasil, realizado em São Paulo. O evento contou com nomes de peso da indústria de ETFs e trouxe discussões sobre cenário atual e perspectivas. O que apareceu nos painéis foi um mercado mais sofisticado, em que o debate deixou de ser apenas “qual produto comprar” para se aproximar de perguntas mais decisivas: para que serve essa alocação, que papel ela cumpre na carteira e qual veículo entrega isso com mais eficiência.

Sair da caixa e entender a embalagem

Logo na largada, Paula Reis, da APIMEC, resumiu uma mudança silenciosa, mas profunda: o investidor agora consegue “pensar fora da caixinha de setores amplos” e mirar temas que vêm transformando a economia. É o retrato do avanço dos ETFs globais, temáticos e de inovação, que deixam de ser apenas vitrines de mercado para virar instrumentos de leitura do mundo.

Flavio Vegas, especialista de produtos na Global X, lembrou que o ETF local traz toda a operação estruturada no Brasil, com gestora, administração e formador de mercado, enquanto o BDR de ETF é apenas o recibo de um produto listado no exterior. A diferença não é cosmética: envolve custos, tributação e experiência de execução. Como reforçou o próprio painel, “o custo do ETF não é só taxa de administração”: spread, corretagem, tributação e taxas acessórias entram nessa conta.

Nesse mesmo eixo, Henry Oyama, diretor de estratégias de investimentos na Hashdex, apontou que o brasileiro ainda carrega um home bias forte, muito ancorado no conforto do CDI e na menor tolerância à volatilidade. Já Pedro Mota, gestor na Nu Asset, trouxe uma reflexão sobre exposição internacional e dolarização de patrimômio: quando o investidor manda dinheiro para fora, percebe que “não é o dólar que oscila, mas sim o real”. A frase vale como metáfora e diagnóstico. Internacionalizar a carteira não é abandonar o Brasil; é parar de tratar o mercado doméstico como medida única de todas as coisas.

Da esquerda para direita: Paula Reis, Flavio Vegas, Henry Oyama e Pedro Mota

Exposição em cripto, dolarizar o patrimônio: o que o investidor precisa entender?

Henry Oyama lembrou que, somando ETFs e BDRs de ETF de cripto, o mercado brasileiro já conta com cerca de 29 ativos, enquanto os Estados Unidos têm mais de 50 e dezenas protocolados. Ainda assim, a mensagem central não foi sobre quantidade, mas sobre função. Oyama insistiu que cripto tem alta volatilidade e que isso pode até ser benéfico, desde que o investidor “saiba moderar a dose de exposição” e rebalanceie a carteira.

Pedro Mota, pela ótica de asset allocation, foi na mesma direção: a carteira deveria contemplar diferentes classes e uma lógica eficiente, na visão dele, seria a do core-satélite. “Usando ETFs para estratégia core, o investidor já tem uma exposição bem diversificada, simples e de baixo custo”, enquanto a parcela satélite entra “de forma bastante controlada, para evitar o risco de ruína”. Nesse desenho, a cripto deixa de ser aposta total e passa a ser parte estrutural, porém comedida, da alocação.

Mota ainda adicionou uma camada técnica relevante ao debate internacional ao lembrar a discussão entre estratégias hedgeadas e não hedgeadas: no hedge, o investidor incorpora também o diferencial de juros Brasil–EUA, historicamente positivo. Com relação à exposição ao câmbio, Pedro Mota trouxe que o investidor que decidiu dolarizar o patrimônio nos últimos 6 anos viu o retorno atrelado ao câmbio ser igual a zero.

O problema já não é produto. É acesso, tradução e experiência

A comparação entre Brasil e Estados Unidos apareceu como régua de maturidade. Alexandre Frade, gestor na Itaú Asset, lembrou que, no mercado americano, o investidor já é muito mais habituado à bolsa, o que facilitou a migração de fundos mútuos para ETFs. No Brasil, o avanço tem outra cara: novas classes foram sendo incorporadas, o ETF saiu do nicho de equity local, a renda fixa ganhou protagonismo e a expansão de plataformas abertas começou a melhorar a distribuição.

Frade foi direto ao ponto: “não adiantava ter uma indústria somente focada em Equity Brasil”. Se o investidor brasileiro é historicamente orientado à renda fixa, faz sentido que a adoção cresça quando o veículo passa a abraçar esse repertório. Ainda assim, o consenso do painel talvez tenha sido outro: hoje, o gargalo já não está na quantidade de produtos. “Temos que melhorar a solução para o cliente”, disse Frade, referindo-se à forma operacional de acesso.

Alexandre Frade, Itaú Asset

Bruno Stein, sócio e responsável pela vertical de ETFs na Galápagos Capital, reforçou a tese com uma frase que precisa ser bem assimilada pelo investidor: “o ETF é um veículo, é um instrumento”. Ou seja: ele não muda sozinho o perfil de alocação do investidor, mas pode ser a melhor ponte entre intenção e execução — desde que o mercado saiba explicar isso. Não por acaso, Stein insistiu que o game-changer virá com mais informação, mais educação e mais divulgação.

Ricardo Schneider, especialista em ETFs, por sua vez, acrescentou um vetor de escala: a adesão do investidor institucional pode dar o impulso que falta para a indústria acelerar de vez. Traduzindo em português claro: a prateleira existe; o desafio agora é iluminar o corredor.

Antes do ticker, vem o destino

Se os painéis anteriores desenharam o tamanho do mapa, a conversa sobre carteira tratou de lembrar que mapa nenhum substitui destino. Rachel Sá, estrategista de investimentos na XP, resumiu isso de forma cristalina: a alocação “vai depender do que você quer com ela”. Parece simples, mas não é banal. Para ela, a pergunta correta não é “qual ETF investir?”, e sim qual objetivo se quer perseguir, porque é isso que define a alocação.

Clayton Rodrigues, head de estratégias indexadas e internacional na Bradesco Asset, completou dizendo que “a beleza dos ETFs é conseguir acessar diferentes mandatos de forma bem simples”, ou, em outras palavras, traduzir a intenção do investidor de maneira eficiente. Rachel citou o ACWI11 como exemplo de core global, lembrando que talvez faça mais sentido pensar o núcleo da carteira como alocação global, e não apenas como uma extensão dos Estados Unidos.

Clayton Rodrigues, Bradesco Asset

Na prática, a montagem dessa carteira passa por leitura de cenário, diversificação e rebalanceamento. Clayton chamou atenção para o momento atrativo da renda fixa local e para temas como tecnologia e China; Christopher Galvão concordou que, com esse nível de juros reais, os ativos de atrelados à inflação tem atraído bastante atenção. A seleção, disse Clayton, precisa seguir uma análise top-down: cenário macro, momento de mercado e só então escolha dos instrumentos.

Conclusão: O ETF é um veículo

O investidor brasileiro tem percebido que o ETF não é um mero produto, mas sim, uma outra forma de acessar uma classe, um segmento, uma geografia. O ETF amadureceu como ferramenta. Falta agora o mercado amadurecer, de vez, a maneira de explicá-lo.