Fernando Kobuti e Anthony Louis desembarcaram em Nova York para o Buena Vista ETF Experience 2026, vivenciando uma imersão profunda nos bastidores do maior mercado de capitais do mundo. Durante os dias intensos na capital financeira, ambos tiveram a oportunidade de circular por dentro das maiores instituições globais, observando de perto as engrenagens que movem a indústria de investimentos.

Na coluna de hoje vamos trazer as percepções e os relatos deles sobre essa jornada. A experiência proporcionou a ambos um verdadeiro choque de realidade financeira, revelando o nível de maturidade do ecossistema americano em relação aos produtos indexados e trazendo reflexões valiosas sobre as oportunidades e a evolução estrutural que aguardam o mercado no Brasil.

O Choque de Escala e a Maturidade do Investidor

Para Anthony Louis, a jornada foi definida por um ritmo alucinante de agendas preenchidas e debates técnicos que se estendiam noite adentro. Ele resume o sentimento de estar lá em duas palavras centrais: gratificação e espanto. "Não importa o quanto você estude ou acompanhe as telas do computador no Brasil, você só entende a real magnitude do ecossistema financeiro quando vê a engrenagem girando do lado de dentro", destacou Anthony.

O grande espanto relatado por ele nasce da diferença brutal de escala e maturidade. Enquanto parte do nosso mercado ainda gasta energia exaurindo debates sobre as miudezas de títulos como CRI e CRA, ou insistindo em decifrar balanços de finais de semana para encontrar a "ação perfeita", os Estados Unidos vivem uma realidade onde cerca de três novos ETFs são lançados diariamente. Lá, o ETF deixou de ser um ativo alternativo há muito tempo para se consolidar como o "feijão com arroz" da construção patrimonial, algo tão enraizado na cultura que é comum ver propagandas do veículo até mesmo em painéis de aeroportos.

O Epicentro dos Dados e o Enigma da Inteligência Artificial

A passagem pela sede da Bloomberg foi apontada como um dos pontos de maior impacto para ambos. Fernando Kobuti ficou maravilhado com a capacidade assombrosa de processamento da gigante de informações, relembrando uma famosa máxima entre os profissionais do setor: "a Bloomberg só perde para o Pentágono quando o assunto é volume de informações e dados processados". Fernando também destacou a experiência de estar dentro de um prédio com formato de ferradura focado em sustentabilidade, onde o ambiente de trabalho e a cultura corporativa impressionam tanto quanto a tecnologia.

E por falar em tecnologia, a Inteligência Artificial foi o tema que permeou quase todas as rodadas de conversa. Anthony notou que, ao contrário do que se pensa no Brasil, a IA ainda gera um debate fervoroso e incerto em Wall Street. Os grandes gestores ainda discutem se os múltiplos das gigantes de tecnologia indicam uma bolha similar à dos anos 2000 ou se estão baratos frente ao crescimento esperado. Contudo, há um consenso absoluto de que a IA transformará radicalmente a produtividade e a economia global. Para Anthony, diante dessa incerteza sobre qual empresa será a verdadeira vencedora, a forma mais eficiente e segura de capturar essa revolução é através da exposição diversificada via ETFs temáticos.

FTSE Russell e Nasdaq: Algumas das engrenagens do mercado

Entender as regras que regem os fluxos de trilhões de dólares globais é um privilégio raro. Na FTSE Russell, Fernando relatou ter recebido "uma verdadeira aula sobre índices", mergulhando fundo nas metodologias sutis que separam índices que, à primeira vista, parecem idênticos. Anthony reforçou o peso colossal dessa instituição, lembrando que os estudos da FTSE Russell são os verdadeiros responsáveis por determinar quais ativos entram ou saem das carteiras dos maiores fundos institucionais do planeta.

A vivência na Nasdaq expandiu ainda mais essa compreensão técnica. Kobuti fez questão de observar que a Nasdaq opera muito além de uma bolsa de listagem, consolidando-se como uma gigante criadora de inteligência e índices. Ele citou especificamente o detalhamento do índice Novo Brasil, uma metodologia desenhada para capturar o pulso da economia brasileira de forma abrangente, incluindo até mesmo empresas que têm laços fortes com o país mas não estão listadas na nossa bolsa local. Para Anthony, a passagem pela Nasdaq foi coroada por um privilégio histórico: participar do Closing Bell no exato dia em que o índice Nasdaq-100 rompeu a barreira dos 30.000 pontos pela primeira vez.

Do Chão de Fábrica Histórico à Inovação Focada em Renda

O contraste entre o futuro algorítmico e a mais pura tradição financeira ficou evidente na visita à Bolsa de Nova York (NYSE). Fernando descreveu o tour pelo prédio como inesquecível, classificando-o como uma aula viva sobre a história da evolução dos formadores de mercado ao longo dos séculos. Anthony captou a mesma essência ao pisar no icônico chão de negociações, absorvendo a energia de um ambiente onde a liquidez e os negócios ainda pulsam em tempo real, conectando passado e presente de forma única.

Mergulhando no futuro das alocações, a comitiva visitou a VettaFi e a NEOS. Na VettaFi, os números esmagadores comprovaram que a expansão da indústria de ETFs é uma tendência estrutural e irreversível, o que reforçou a tese de Kobuti de que o protagonismo desse veículo nos EUA logo será espelhado no Brasil. Já na NEOS, a pauta central foi a inovação em geração de renda. O assessor destacou a engenharia dos ETFs de opções, produtos que geram fluxo de caixa recorrente, reduzem a volatilidade e incentivam o investidor a manter o capital alocado por horizontes mais longos. Anthony corroborou a leitura, atestando que os ETFs são instrumentos insuperáveis na entrega de estratégias de renda passiva com extrema eficiência.

O Futuro do Brasil Passa pela Evolução Estrutural

Durante a passagem pela DWS, divisão do Deutsche Bank focada na estruturação de produtos, Fernando mapeou uma enorme avenida de crescimento para o nosso país: os ETFs UCITS. Segundo sua análise, esse modelo estrutural europeu ganhará tração massiva no Brasil graças às suas vantagens em termos de sucessão, eficiência tributária e facilidade para quem busca internacionalizar o patrimônio.

Na perspectiva de Anthony, a lição mais valiosa dessa imersão é clara: o investidor brasileiro tem a oportunidade de ouro de poupar anos de erros apenas observando o que já funciona lá fora. A obsessão nacional pelo stock picking muitas vezes cobra um preço silencioso e alto em performance no longo prazo. "Quando entendemos o conceito de alocação estrutural via ETFs, percebemos que podemos terceirizar a escolha dos ativos para regras de índices claros e transparentes, focando nossa energia no que realmente importa", cravou Anthony.

Ao amarrar todas essas percepções, fica evidente que os dois especialistas retornaram com convicções transformadoras. Kobuti conclui sua participação garantindo que a indústria de ETFs não é uma prateleira de produtos, mas sim uma mudança estrutural sem volta na forma como as pessoas investem. Já Anthony encerra com uma provocação necessária em prol da maturidade financeira. Ignorar essa modernização é uma receita certa para a ineficiência, e como ele mesmo definiu de forma cirúrgica: "o mercado não para… e nós também não podemos parar no tempo"